21/03/202610 min readFR

Respondendo a uma Falsa Alegação Sobre o Shaykh Abu al-Abbas al-Tijani

Skiredj Library of Tijani Studies

Uma Resposta à Acusação de que o Sīdī Aḥmad al-Tijānī Foi Aprisionado em Tlemcen

Em nome de Allah, o Clemente, o Misericordioso.

Louvado seja Allah, e que as bênçãos e a paz estejam sobre o nosso senhor Muhammad, sua família e seus companheiros.

Entre as alegações recorrentes feitas contra o Shaykh Sīdī Aḥmad al-Tijānī, que Allah esteja satisfeito com ele, está uma história divulgada numa obra histórica conhecida como Al-Lisan al-Mu‘rab, também referida como Al-Lisan al-Mu‘rab ‘an Tahafut al-Ajnabi Hawla al-Maghrib. Nesse relato, o autor alega que o Sīdī Aḥmad al-Tijānī foi aprisionado em Tlemcen porque afirmou ter visto o Profeta Muhammad, que a paz e as bênçãos estejam sobre ele, em estado de vigília e não em sonho.

Segundo essa versão, foi convocado um conselho de eruditos para examinar o seu caso. Alguns, supostamente, julgaram-no desviado, enquanto outros hesitaram, tratando as suas declarações como enunciações místicas. A mesma narrativa afirma então que o Shaykh Muhammad al-Buzidi interveio, ouviu o Shaykh al-Tijani, confirmou a validade da sua alegação e assegurou a sua libertação da prisão.

Esta história, porém, não resiste ao escrutínio. Um exame mais atento das evidências mostra que ela é infundada, historicamente incoerente e não apoiada pelas fontes fidedignas da tradição tijani.

A Origem da Alegação

A história aparece num livro de Muhammad ibn Muhammad Fatha al-A‘raj al-Sulaymani, um historiador nascido em 1285 H e falecido em 1344 H. O problema é imediato: o autor não oferece nenhuma cadeia de transmissão, nenhuma citação de fonte e nenhuma prova documental para o relato. Limita-se a narrá-lo como uma história.

Só isto já é motivo de cautela. Mas a lacuna cronológica torna a questão ainda mais problemática. O Shaykh al-Buzidi, que é apresentado como a figura-chave da história, faleceu em 1229 H, apenas um ano antes do falecimento do Sīdī Aḥmad al-Tijānī. O autor do livro nasceu apenas 56 anos após a morte de al-Buzidi. Isto significa que ele não poderia, de modo algum, ter recebido a história diretamente, e ele não fornece nenhum intermediário confiável.

Por essa razão, a história não pode ser tratada como evidência histórica credível. Na melhor das hipóteses, é uma anedota não verificada. Na pior, é uma fabricação repetida sem a devida investigação.

Uma Forte Refutação Erudita da História

Quando este relato foi levado ao conhecimento de um descendente do Shaykh Abu al-Abbas al-Tijani, foi feita uma busca pela edição impressa do livro.XXXXX

Foi encontrada uma cópia impressa em Rabat no ano de 1391 AH / 1971 EC. Na margem dessa cópia havia uma nota manuscrita do erudito do hadith e حافظ, Sidi Idris ibn Muhammad ibn al-‘Abid al-‘Iraqi.

O seu juízo foi direto e severo: a história era pura falsidade, invenção e grave calúnia. Ele também declarou que o autor deveria ter agido com cautela e verificado o assunto, em vez de o registar de modo descuidado.

Esta reação é importante porque reflete a visão de um erudito qualificado, que possuía tanto o saber quanto a seriedade necessários para avaliar um relato desse tipo.

Nenhuma Fonte Tijanita Confiável Menciona Qualquer Encarceramento

Uma das razões mais claras para rejeitar a alegação é que nenhum dos historiadores reconhecidos da via tijanita jamais afirmou que o Sīdī Aḥmad al-Tijānī tenha sido aprisionado em Tlemcen.

Este ponto é de grande importância. Os eruditos e cronistas da Tijaniyya foram atentos até mesmo a pormenores menores relativos à vida do Shaykh. Se um acontecimento tão dramático como um encarceramento tivesse realmente ocorrido, não teria passado despercebido nem ficado sem registo na literatura autorizada da ordem.

O que as fontes confiáveis mencionam, isto sim, é que o Shaykh al-Tijani enfrentou pressão e assédio por parte das autoridades governantes durante o seu tempo em Tlemcen. Essas restrições foram reais, mas não chegaram ao ponto de detenção e prisão.

O Que De Fato Aconteceu em Tlemcen

O Sīdī Aḥmad al-Tijānī permaneceu em Tlemcen por cerca de oito anos após regressar do Hajj em 1188 AH. Durante esse período, ensinou conhecimento, orientou as pessoas e passou a ser amplamente respeitado pelo seu saber, retidão e grau espiritual.

A sua presença na cidade atraiu muitos visitantes de diferentes regiões. Era conhecido por conjugar o domínio do conhecimento religioso exterior com a realização espiritual interior. Essa reputação crescente parece ter despertado inveja em alguns opositores e inquietação nas autoridades.

Em certo momento, foi impedido de deixar a cidade quando pretendia regressar ao seu local de nascimento, ‘Ayn Madi. A razão, segundo o texto, foi que as autoridades temiam a sua influência entre as tribos do deserto e receavam que a sua posição pudesse permitir resistência contra elas. Pressão semelhante também afetou alguns dos seus discípulos e seguidores.

Isto é muito diferente da afirmação de que ele tenha sido encarcerado por causa de uma declaração teológica ou mística.

Por Que as Autoridades Estavam Preocupadas

A questão não era um aprisionamento por afirmar ver o Profeta enquanto acordado. Antes, o verdadeiro pano de fundo era político e social.

Os governantes na Argélia ficaram alarmados com o rápido crescimento da fama do Shaykh al-Tijani e com o aumento do número de tribos e delegações que o visitavam, o honravam e falavam dele em termos exaltados. A sua preocupação estava ligada à sua influência, à sua popularidade e à expansão da sua autoridade espiritual.

O texto explica que as autoridades se perturbavam com a difusão da via ahmadi-tijanita no Saara e procuraram limitar a sua influência a partir do seu primeiro centro na região de Abi Samghun. Este contexto mais amplo faz muito mais sentido histórico do que o relato da prisão encontrado no livro posterior.

A História do Shaykh al-Buzidi é Historicamente Impossível

Outra falha maior na narrativa contestada é a alegação de que o Shaykh Muhammad al-Buzidi teria intervindo pessoalmente no assunto.

Segundo o texto de resposta, o Shaykh al-Buzidi nunca chegou a encontrar-se com o Sīdī Aḥmad al-Tijānī. Este ponto é reforçado por um relato de Sidi Ahmad Sukayrij, que perguntou ao seu próprio shaykh, o gnóstico Sidi Ahmad al-‘Abdalawi, se Ibn ‘Ajiba alguma vez se encontrara com o Sīdī Aḥmad al-Tijānī. A resposta foi explícita: nem Ibn ‘Ajiba nem o seu shaykh, al-Buzidi, jamais se encontraram com Mawlana al-Shaykh.

Se al-Buzidi nunca se encontrou com o Shaykh al-Tijani, então a história de ele ter comparecido diante dos eruditos de Tlemcen para o defender desmorona por completo.

A Figura Real Que Respondeu aos Eruditos de Tlemcen

A resposta identifica a pessoa efetivamente ligada ao debate em Tlemcen: o erudito Muhammad ibn ‘Abd Allah al-Muwaffaq al-Jilani.

Ele esteve entre os eruditos presentes numa reunião convocada, por instigação das autoridades, para discutir o que surgira do Shaykh al-Tijani no Saara e para contestar a nova via tijanita e os seus méritos distintivos. Este ajuntamento tinha por objetivo conter a difusão da ordem e miná-la na sua fase mais inicial.

Mais tarde, o Shaykh al-Tijani censurou al-Jilani por ter comparecido a essa reunião e escreveu-lhe uma carta sobre o assunto. Em resposta, al-Jilani enviou uma carta importante explicando o que ocorrera.

O Que Al-Jilani De Fato Disse

Na sua resposta, al-Jilani descreveu como cerca de vinte pessoas se reuniram e levantaram objeções relativas a declarações atribuídas ao Shaykh al-Tijani. Ele manteve-se em silêncio até que todos tivessem falado, e então adiou a sua resposta para o dia seguinte.

Quando se reuniram novamente, ele os interpelou quanto ao método adequado de investigação erudita. Fez-lhes perguntas fundamentais sobre o conhecimento do invisível, a santidade, os dons divinos e a diferença entre aquilo que é concedido por Allah e aquilo que é adquirido pelo esforço humano. Ao fazê-lo, mostrou que eles haviam precipitado o seu juízo antes de compreenderem devidamente o assunto.

Em seguida, apresentou um testemunho notável acerca do Sīdī Aḥmad al-Tijānī. Descreveu-o como:

seu irmão na via da busca,

um homem de religião e entendimento do mundo,

alguém que reunia as ciências da Shari‘a e da Haqiqa,

um mestre tanto do conhecimento racional quanto do transmitido,

puro, piedoso e conhecedor de Allah,

uma pessoa conhecida pela retidão desde o início do seu caminho,

alguém que se encontrara com grandes shaykhs, recebera autorização e era digno de ser seguido.

Acrescentou que a declaração atribuída ao Shaykh al-Tijani não implicava necessariamente nada censurável, porque podia comportar vários sentidos possíveis e deveria ser compreendida à luz do contexto e dos indícios.

Em outras palavras, al-Jilani não condenou o Shaykh al-Tijani. Pelo contrário, defendeu-o com conhecimento, nuance e respeito, até que a reunião se calou.

A Visão do Profeta Enquanto Acordado

A narrativa contestada procura fazer a questão girar em torno da alegação de ver o Profeta, que a paz e as bênçãos estejam sobre ele, enquanto acordado. O texto de resposta explica que tal assunto, em si mesmo, não é impossível no discurso de muitos eruditos muçulmanos acerca dos santos e das pessoas de realização espiritual.

Mas, mesmo para além desse ponto, o texto argumenta que o momento da alegação está errado. Afirma que o Shaykh al-Tijani não alcançou a grande abertura associada ao encontro direto, em vigília, com o Mensageiro de Allah senão após a sua chegada a Abi Samghun. Durante os seus primeiros anos em Tlemcen, ele estava ocupado com o ensino, com beneficiar as pessoas, com o retiro, a lembrança e o afastamento de pretensões públicas.

Isto significa que a história da prisão não é apenas fraca na transmissão, mas também inconsistente com a cronologia estabelecida da vida do Shaykh.

O Encarceramento Não é a Questão Real

A resposta estabelece uma distinção importante: o encarceramento, em si mesmo, não é uma falha no caso de profetas e santos. O Profeta Yusuf, que a paz esteja com ele, foi aprisionado, e muitos awliya’ virtuosos também sofreram detenção ou perseguição sem qualquer diminuição do seu grau perante Allah.

Assim, a questão não é a prisão enquanto tal. A verdadeira ofensa é falsificar a história e espalhar mentiras sobre os amigos de Allah a fim de diminuir a sua posição.

Esse é o cerne do assunto.

Uma Compreensão Histórica Mais Precisa

A conclusão correta é que a narrativa encontrada em Al-Lisan al-Mu‘rab não é um relato autêntico da vida do Sīdī Aḥmad al-Tijānī.XXXXX

O esboço fidedigno é este:

O Sīdī Aḥmad al-Tijānī viveu em Tlemcen por cerca de oito anos, ensinando e orientando as pessoas. Ganhou grande renome, o que levou à inveja, à hostilidade e à pressão por parte de algumas autoridades. Certa vez, foi impedido de deixar a cidade, mas não foi encarcerado. De facto, ocorreu uma reunião de eruditos sob pressão política, mas quem se dirigiu aos sábios foi Muhammad ibn ‘Abd Allah al-Muwaffaq al-Jilani, e não o Shaykh al-Buzidi. A história da prisão, portanto, carece de suporte histórico e é internamente inconsistente.

Conclusão Final

A alegação de que o Sīdī Aḥmad al-Tijānī foi preso em Tlemcen por ter afirmado ver o Profeta Muhammad, que Allah lhe conceda paz e bênçãos, em estado de vigília, não é sustentada por evidência histórica fidedigna.

Surge sem cadeia de transmissão, contradiz a cronologia estabelecida, entra em conflito com as biografias conhecidas do Shaykh e identifica erroneamente o erudito envolvido no debate. O relato mais preciso mostra que o Shaykh al-Tijani enfrentou assédio e pressão política devido à sua influência crescente, e não encarceramento por uma alegação mística.

Por essa razão, a história deve ser reconhecida pelo que é: um relato falso, sem fundamento histórico sólido.

Que Allah envie bênçãos e paz sobre o nosso mestre Muhammad, sua família e seus companheiros.

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Esta tradução pode conter imprecisões. A versão inglesa de referência deste artigo está disponível com o título Answering a False Claim About Shaykh Abu al-Abbas al-Tijani