Skiredj Library of Tijani Studies
Sīdī Aḥmad al-Tijānī e a Misericórdia para com os Animais: Um Modelo Profético de Compaixão
Em nome de Allah, o Clemente, o Misericordioso.Todo o louvor pertence a Allah. Que Allah envie orações, paz e bênçãos sobre o nosso senhor Sayyidina Muhammad, sobre a sua família e sobre os seus companheiros.
Entre as nobres questões levantadas pelas pessoas do caminho tijani está esta: como lidava Shaykh Sīdī Aḥmad al-Tijānī, que Allah esteja satisfeito com ele, com os animais, as aves e outras criaturas vivas? A resposta é ao mesmo tempo bela e instrutiva. A sua vida mostra que a misericórdia no Islão não se limita apenas aos seres humanos. Ela estende-se a toda criatura viva.
Este artigo apresenta um aspeto importante do caráter de Sīdī Aḥmad al-Tijānī: a sua brandura, a sua compaixão e a sua profunda solicitude pelos animais. Mostra também como essa misericórdia não foi senão uma continuação da Sunnah profética.
A misericórdia como parte da herança profética do Shaykh
Sīdī Aḥmad al-Tijānī, que Allah esteja satisfeito com ele, era conhecido pela misericórdia em todos os domínios. A sua brandura com as pessoas já é bem conhecida, e a sua conduta para com aqueles sob os seus cuidados era exemplar. Mas a sua misericórdia era também visível na forma como tratava os animais, fossem bestas domésticas, aves ou outras criaturas.
Os que o conheceram testemunharam que a sua compaixão nesta matéria era excecional. Um dos sábios próximos da tradição do caminho disse que Sīdī Aḥmad al-Tijānī alcançara um grau notável de misericórdia, que refletia uma profunda herança do Mensageiro de Allah, paz e bênçãos sobre ele.
Isto não é surpreendente. O Profeta, paz e bênçãos sobre ele, foi enviado como misericórdia para os mundos, e os amigos de Allah herdam dessa misericórdia segundo o seu grau.
Um pássaro não deve ser deixado sozinho no sofrimento
Um episódio marcante diz respeito a um presente levado ao Shaykh em Fez. Um nobre الشريف, Sidi Musa ibn Ma‘zuz, veio certa vez à casa do Shaykh trazendo uma ave aquática como presente. Um servo tomou a ave e colocou-a na bacia de água no pátio.
Quando Sīdī Aḥmad al-Tijānī, que Allah esteja satisfeito com ele, olhou para a bacia e viu a ave ali a mover-se sozinha, dirigiu-se de imediato a um dos seus servos e disse, em sentido:
Olha para ela. Se for macho, então encontra-lhe uma fêmea. Se for fêmea, então encontra-lhe um macho, porque ela é prejudicada por estar sozinha, sem companheiro.
O servo examinou a ave e constatou que era fêmea. Foi então diretamente ao mercado comprar uma ave macho e trouxe-a de volta, colocando-a ao lado da fêmea, exatamente como o Shaykh pedira.
Este episódio é notável por várias razões. Primeiro, mostra que o Shaykh não via os animais como meros objetos. Reconhecia a sua condição e a sua necessidade. Segundo, mostra uma consciência refinada: a solidão e a aflição não são realidades apenas humanas. Terceiro, reflete uma misericórdia enraizada no discernimento, e não apenas no sentimento.
Relata-se que, quando alguém manifestou surpresa perante tamanha solicitude, o Shaykh respondeu de um modo que indicava que nem toda a verdade da vida está escrita nos livros. Algumas coisas são conhecidas por meio de uma sabedoria vivida, de um refinamento espiritual e de misericórdia.
Recusar sobrecarregar uma mula exausta
Outro relato célebre mostra a recusa do Shaykh em beneficiar do sofrimento animal.
Certo dia, em Fez, Sīdī Aḥmad al-Tijānī, que Allah esteja satisfeito com ele, quis transportar alguns dos seus pertences e pediu um carregador. Chegou um homem com uma mula que já vinha sobrecarregada com pesados fardos agrícolas. O animal estava fraco, ferido, magro e visivelmente exausto.
Assim que o Shaykh viu o estado da mula, afastou-se dela. Repreendeu o seu dono pelo mau trato do animal e por colocar tanto peso sobre uma criatura já esmagada pela adversidade.
O dono insistiu e ofereceu-se para, ainda assim, transportar os bens do Shaykh. Mas o Shaykh recusou e proferiu uma expressão memorável em árabe marroquino, cujo sentido é:
Ela já tem carga suficiente dela própria; não lhe acrescentarei também a minha carga.
Esta frase encerra uma ética inteira. O Shaykh não apenas recusava a crueldade. Recusava a conveniência comprada com a dor de outra criatura. Não permitiria que as suas próprias necessidades aumentassem o sofrimento de um animal já aflito.
Quando lhe perguntaram sobre isso, explicou a questão à luz da Sunnah profética, recordando o conhecido hadith em que o Profeta, paz e bênçãos sobre ele, entrou num jardim e encontrou um camelo a chorar. O Mensageiro de Allah, paz e bênçãos sobre ele, enxugou-lhe as lágrimas e perguntou quem era o seu dono. Depois disse ao proprietário:
Não temes a Allah a respeito deste animal que Allah colocou na tua posse? Ele queixou-se-me de que tu o manténs com fome e o sobrecarregas de trabalho.
Sīdī Aḥmad al-Tijānī vivia, claramente, segundo este padrão profético.
Cuidar de um animal abandonado e moribundo
Um terceiro relato é ainda mais comovente.
Numa ocasião, o Shaykh regressava de fora das muralhas de Fez com alguns dos seus servos.XXXXX
Perto de uma das portas da cidade, ele viu um animal deitado num lugar de lixo. Ainda estava vivo, mas mal. Estava gravemente enfraquecido, extremamente magro, doente e próximo da morte.
O seu dono tinha-o atirado ali por conveniência egoísta, aparentemente temendo o custo de o remover devidamente caso morresse dentro da cidade.
Quando o Shaykh viu o animal, perguntou quem era o seu dono. Depois de conhecer os detalhes, entristeceu-se profundamente com o que fora feito. Então voltou-se para um dos seus servos e disse, em sentido:
Dá-lhe comida e água até que morra. Não é lícito deixá-lo assim, com fome.
O servo continuou então a cuidar do animal, alimentando-o e dando-lhe de beber até que Allah decretou a sua morte.
Esta cena revela a clareza moral do Shaykh. Mesmo quando o animal estava para além de recuperação, ainda lhe era devida misericórdia. O facto de estar fraco, descartado e perto da morte não lhe retirava o direito ao cuidado. Pelo contrário, a sua fraqueza tornava a misericórdia ainda mais urgente.
A sua compaixão estava enraizada na Sunnah
Estas histórias não são curiosidades isoladas. São expressões de uma compreensão profundamente islâmica da misericórdia.
A conduta do Shaykh decorre diretamente dos ensinamentos do Profeta, paz e bênçãos sobre ele. O Islão não permite a crueldade para com os animais. Proíbe a negligência, o abuso, a sobrecarga desnecessária, a fome, e a indiferença perante o sofrimento.
O famoso hadith afirma que uma mulher entrou no Fogo por causa de uma gata que ela prendeu: não a alimentou nem lhe permitiu comer das criaturas da terra.
Outro hadith autêntico narra a história de um homem que encontrou um cão sedento, ofegante, junto a um poço. Ele desceu ao poço, encheu o seu sapato de água e deu de beber ao cão. Allah aceitou esse ato, agradeceu-lho e perdoou-lhe. Quando os Companheiros perguntaram se há recompensa na bondade para com os animais, o Profeta, paz e bênçãos sobre ele, respondeu:
Em todo ser vivo com um fígado húmido há recompensa.
Esta é uma das mais claras bases da misericórdia islâmica para com os animais. Sīdī Aḥmad al-Tijānī corporizou este ensinamento na prática.
O que estas histórias nos ensinam hoje
Estes relatos não são apenas sobre o passado. São lições para o presente.
Ensinam-nos que:
os animais não são ferramentas sem direitos
sobrecarregá-los de trabalho ou negligenciá-los é moralmente censurável
alimentá-los e dar-lhes de beber é um ato recompensado
a misericórdia deve estender-se mesmo às criaturas fracas, abandonadas ou moribundas
a verdadeira espiritualidade nunca se separa da compaixão
seguir a Sunnah inclui gentileza para com todos os seres vivos
Uma pessoa pode falar muito sobre religião, devoção e lembrança, e ainda assim falhar a prova da misericórdia. Mas os santos de Allah ensinam por meio do exemplo vivido. A sua espiritualidade manifesta-se na oração, na lembrança, na veracidade, na humildade, e também no modo como tratam os vulneráveis.
Sīdī Aḥmad al-Tijānī como exemplo de misericórdia viva
Para nós, como Tijanis, estas histórias aprofundam a nossa compreensão do carácter do Shaykh. Ele não era apenas um mestre do conhecimento espiritual e da lembrança divina. Era também um homem cujo coração estava vivo de ternura, justiça e misericórdia.
A sua compaixão para com os animais não foi acidental. Foi uma extensão da sua fidelidade ao Mensageiro de Allah, paz e bênçãos sobre ele. É por isso que a sua vida permanece instrutiva. Ensina-nos que a proximidade de Allah deve produzir misericórdia, não dureza.
Um caminho que reivindica amor pelo Profeta deve refletir a misericórdia do Profeta. Sīdī Aḥmad al-Tijānī fez exatamente isso.
Conclusão
A vida de Sīdī Aḥmad al-Tijānī, que Allah esteja satisfeito com ele, mostra que a misericórdia para com os animais não é secundária no Islão. É parte da fé, parte do carácter e parte da herança profética.
Quer fosse um pássaro solitário, uma mula exausta, ou uma besta moribunda abandonada pelo seu dono, o Shaykh respondeu com atenção, compaixão e seriedade moral. Recusou a crueldade. Recusou a indiferença. Recusou acrescentar peso ao que já estava sobrecarregado.
Nisto, como em tantos outros assuntos, ele seguia a Sunnah do seu nobre avô, Sayyidina Muhammad, paz e bênçãos sobre ele.
+++